Cerca de 550 participantes, 80 empresas expositoras e mais de 60 workshops marcaram a 14.ª edição da Conferência Passivhaus Portugal, que trouxe exemplos internacionais de como aplicar o padrão Passive House a milhares de habitações, mantendo o foco na qualidade, no desempenho e nos custos de construção.
Um dos exemplos internacionais em destaque foi o do Grupo Lobe, apresentado por Jesús Díaz, diretor de produção do grupo, que mostrou como a empresa espanhola integrou o padrão Passive House na sua forma de projetar, construir e promover. “Nos últimos dez anos fomos industrializando e otimizando continuamente o nosso processo construtivo. Hoje temos cerca de 7.000 habitações Passive House, em diferentes modelos, desde habitação para venda e arrendamento até habitação social, e conseguimos reduzir de forma muito significativa as horas de trabalho em obra e melhorar a eficiência dos edifícios. Chegámos a um ponto em que conseguimos construir Passive House a um custo inferior ao da construção tradicional e, no final, entregar um imóvel mais valorizado pelo mercado e com melhor desempenho”, sublinhou Jesús Díaz.
A experiência espanhola mostrou que construir Passive House em escala não depende apenas da escolha de soluções técnicas, mas também de um processo integrado, que começa no projeto e passa pela industrialização, pela repetição de soluções, pelo planeamento e pelo controlo da execução.
Esta discussão foi alargada a Portugal numa mesa-redonda que juntou representantes do Grupo Casais, da Cushman & Wakefield e da Savills, trazendo as perspetivas da construção, do imobiliário e da consultoria para o debate sobre as condições necessárias para aumentar a presença do padrão Passive House no mercado nacional.
Dos Estados Unidos chegou outra perspetiva. Michael Ingui, arquiteto e fundador da Ingui Architecture e do Passive House Accelerator, apresentou alguns dos projetos Passive House desenvolvidos pelo seu atelier em Nova Iorque, mas centrou também a atenção num desafio que considera essencial para o crescimento do conceito: a forma como é comunicado.
“Se queremos que a Passive House chegue a mais pessoas temos de simplificar a forma como a comunicamos. As pessoas não procuram pontes térmicas ou estanquidade ao ar. Procuram uma casa confortável, saudável, sem humidades ou bolores e com melhor qualidade do ar interior. É sobre esses benefícios e sobre a qualidade de vida que devemos falar”, defendeu o arquiteto.
Michael Ingui partilhou ainda exemplos de iniciativas desenvolvidas nos Estados Unidos, incluindo conversas e painéis com construtores, que procuram aproximar a Passive House do mercado e transformar um conceito técnico numa proposta de valor facilmente compreendida por quem vai efetivamente utilizar os edifícios.
Se Jesús Díaz trouxe um modelo já aplicado em grande escala e Michael Ingui mostrou a importância de comunicar melhor o seu valor, Lloyd Alter encerrou a conferência, deixando sobretudo perguntas.
O arquiteto, autor e professor de design sustentável (que a NovoPerfil entrevista na sua edição de novembro) refletiu sobre a forma como vamos habitar um mundo sujeito a temperaturas mais elevadas, fenómenos climáticos extremos mais frequentes e maior instabilidade no acesso à energia e a outros recursos.
Esta reflexão colocou a eficiência, a resiliência e o desempenho passivo no centro da discussão e lançou uma questão fundamental para todo o setor: podemos continuar a construir hoje da mesma forma quando sabemos que os edifícios terão de responder a condições muito diferentes no futuro?
Para além das sessões do Grande Auditório, a conferência voltou a apostar fortemente na componente prática. Ao longo dos dois dias, realizaram-se mais de 60 workshops, distribuídos por diferentes zonas, nos quais profissionais e empresas apresentaram projetos Passive House, soluções construtivas, sistemas e equipamentos desenvolvidos e aplicados em contexto real.
No dia 22 de outubro, o evento saiu novamente do Centro de Congressos, com visitas guiadas a edifícios Passive House, permitindo aos participantes conhecer no local construções realizadas segundo este padrão e contactar diretamente com os projetos e as soluções utilizadas.
Esta 14.ª edição ficou também marcada pelo lançamento das novas bolsas de estudo Passive House. Ao longo do próximo ano, serão atribuídas 15 bolsas, dirigidas a membros recém-inscritos na Ordem dos Engenheiros, na Ordem dos Arquitetos e na Ordem dos Engenheiros Técnicos.
A iniciativa pretende aproximar uma nova geração de profissionais do conhecimento sobre Passive House e reforçar competências numa área que assume uma importância crescente perante os desafios relacionados com a qualidade, o conforto e o desempenho do parque edificado.
As candidaturas estão abertas até 31 de dezembro de 2026, através deste formulário.
A próxima edição da conferência da Associação Passivhaus Portugal já tem data marcada. A 15.ª Conferência realiza-se nos dias 19 e 20 de outubro de 2027, novamente no Centro de Congressos de Aveiro. O dia 21 de outubro será dedicado às visitas guiadas a edifícios Passive House.
Depois de uma edição centrada em perceber como tornar o excecional comum, a conferência deixa uma conclusão clara: a construção Passive House em grande escala já não é uma possibilidade teórica. Existem projetos, empresas e mercados que demonstram que é possível fazê-lo. O desafio passa agora por transformar essa experiência em prática corrente também em Portugal.



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