Viren Dhimmer, Técnico Especialista na Direção de Sustentabilidade e Mobilidade da ADENE
14/10/2026
Neste cenário, as instalações sanitárias destacam-se como uma das áreas com maior potencial de melhoria. Concentram uma parte significativa do consumo de água dos edifícios e representam, por isso, uma das oportunidades mais diretas para implementar medidas de eficiência hídrica com impacto imediato.
Nos edifícios habitacionais, cerca de dois terços do consumo total de água estão associados a utilizações realizadas nas instalações sanitárias. Entre os diferentes dispositivos, o sistema de duche constitui o principal consumidor de água, representando entre 32% e 38% do consumo doméstico. Os autoclismos surgem em seguida, com uma contribuição entre 19% e 31%, enquanto as torneiras e outros equipamentos completam a restante fatia da utilização diária.
Esta distribuição evidencia algo simples. Melhorias introduzidas nos dispositivos sanitários, como a instalação de redutores de caudal, chuveiros eficientes, autoclismos de dupla descarga ou torneiras de baixo consumo, podem traduzir-se em reduções expressivas do consumo total de água de um edifício. Por exemplo, se considerarmos um chuveiro com um caudal de sete litros por minuto em detrimento de um chuveiro com um caudal de 15 litros por minuto, verifica-se uma redução de consumo de aproximadamente 53%. Assumindo uma duração média de duche de oito minutos, esta medida permite poupar, ao fim de um ano, o equivalente a 417 duches.
A necessidade de melhorar a eficiência hídrica dos edifícios torna-se ainda mais evidente à luz da realidade climática atual. Portugal encontra-se entre os países europeus mais vulneráveis aos impactos das alterações climáticas, verificando-se uma tendência de diminuição da disponibilidade hídrica, acompanhada por uma maior frequência e intensidade de fenómenos extremos, como secas prolongadas e ondas de calor.
Paralelamente, o crescimento da procura de água, a pressão sobre as infraestruturas urbanas e o envelhecimento de uma parte significativa do parque edificado aumentam a necessidade de adotar soluções que promovam uma utilização mais racional deste recurso. Em muitos edifícios continuam a existir dispositivos com consumos elevados e pouca sensibilização dos gestores/utilizadores para o tema.
Devemos também recordar que água e energia estão intimamente ligadas. O tratamento e a distribuição de água nas cidades podem representar entre 6% a 18% da procura energética urbana, e o aquecimento de água sanitária pode pesar até 23% na fatura energética de uma habitação. Reduzir o consumo de água nas instalações sanitárias não é, por isso, apenas uma questão de poupar um recurso natural, é também uma forma direta de reduzir consumos energéticos e, consequentemente, emissões de CO2 associadas à produção, tratamento e aquecimento de água.
Neste enquadramento, a adaptação às alterações climáticas passa inevitavelmente por uma utilização mais eficiente da água. Mais do que responder a períodos pontuais de escassez, importa tornar os edifícios resilientes, capazes de reduzir consumos de forma permanente e de integrar soluções que garantam uma gestão sustentável dos recursos hídricos ao longo do seu ciclo de vida.
A substituição de dispositivos convencionais por equipamentos eficientes, a aplicação de redutores de caudal, o aproveitamento de origens alternativas de água, a monitorização de consumos e a formação e sensibilização dos utilizadores, constituem algumas das medidas com maior potencial de redução, beneficiando dos avanços tecnológicos que permitem poupanças significativas sem comprometer o conforto e a funcionalidade.
No entanto, para que estas intervenções sejam eficazes e comparáveis entre si, é importante dispor de metodologias que permitam avaliar objetivamente o desempenho hídrico dos edifícios, identificar prioridades de intervenção e quantificar os benefícios obtidos.
É neste contexto que surge o sistema AQUA+, desenvolvido pela ADENE - Agência para a Energia, como ferramenta de avaliação e classificação da eficiência hídrica dos edifícios.
Inspirado na certificação energética, o AQUA+ permite caracterizar o desempenho hídrico de um edifício através da atribuição de uma classe de eficiência, numa escala de F (menos eficiente) a A+ (mais eficiente). Além de comunicar de forma simples o nível de desempenho, o sistema constitui um instrumento de apoio à decisão, permitindo identificar oportunidades concretas de melhoria e estabelecer indicadores de desempenho comparáveis entre edifícios.
A metodologia pode ser aplicada em diferentes fases do ciclo de vida do edifício, projeto, utilização e reabilitação, recorrendo a uma avaliação documental complementada por uma auditoria técnica. Esta abordagem permite analisar um conjunto de áreas representativas do consumo de água, ajustadas à complexidade infraestrutural de cada edifício, assegurando uma avaliação consistente e comparável.
Mais do que atribuir uma classificação, o AQUA+ identifica medidas de melhoria capazes de aumentar o desempenho hídrico do edifício, incluindo, mas não se limitando à substituição de dispositivos por soluções mais eficientes. Atualmente, o sistema é aplicável a edifícios habitacionais e a diversas tipologias de comércio e serviços, incluindo empreendimentos turísticos, alojamento local e edifícios de escritórios, estando prevista a sua expansão a outras tipologias.
Os números confirmam a trajetória de crescimento do sistema: cerca de 400 técnicos formados, 133 auditores qualificados, 4 407 classificações emitidas e 95 edifícios classificados. O potencial de poupança identificado desde o início da sua aplicação ascende a 120 milhões de litros de água, um volume que, tendo em conta o nexus água-energia acima descrito, se traduz também em energia e emissões de CO2 evitadas ao longo da cadeia de tratamento, distribuição e aquecimento de água.
O AQUA+ está alinhado com os objetivos do Pacto Ecológico Europeu, da Diretiva relativa ao Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) e da Estratégia Europeia para a Resiliência Hídrica, instrumentos que promovem a utilização eficiente de recursos e a adaptação às alterações climáticas, mas que não definem uma metodologia para avaliar a eficiência hídrica dos edifícios.
Em Portugal, a estratégia Água que Une reforça esta abordagem ao prever a integração de requisitos de eficiência hídrica na regulamentação aplicável às redes prediais. A Estratégia de Longo Prazo para a Renovação dos Edifícios (ELPRE) já reconhece o potencial do AQUA+ como instrumento de apoio à avaliação de projetos de reabilitação e à atribuição de incentivos públicos.
As instalações sanitárias compreendem uma parcela representativa dos consumos de água num edifício, constituindo um dos espaços com maior potencial para a implementação de medidas de eficiência hídrica. O AQUA+ demonstra, através de resultados mensuráveis, que é possível avaliar, classificar e melhorar o desempenho hídrico dos edifícios.
Deveria ser prática comum que sistemas de classificação como este fossem considerados em programas de incentivo à reabilitação, em concursos públicos e na construção de novos empreendimentos.
É também importante ressalvar que, atualmente, o mercado de dispositivos sanitários é tão diverso como o mercado de eletrodomésticos, chuveiros, autoclismos e torneiras com desempenhos, preços e funcionalidades muito distintas entre si, e com períodos de retorno que, em muitos casos, se contam em poucos anos.
Nesta área, conhecer o mercado e escolher bem, é uma decisão financeira importante, com impacto direto e mensurável na fatura da água e da energia.
É hora de fazer diferente e melhor.
Mais informações em www.aquamais.pt



oinstalador.novaagora.com
O Instalador - Informação profissional do setor das instalações em Portugal