À margem da sua recente visita a Portugal, Bill McQuade, presidente da ASHRAE para o mandato 2025-2026, concedeu uma entrevista à revista O Instalador, na qual abordou alguns dos principais desafios que se colocam ao setor AVAC&R e ao ambiente construído.
Bill McQuade, presidente da ASHRAE para o mandato 2025-2026. © ASHRAE.
O principal obstáculo à criação de edifícios saudáveis é a lacuna estrutural existente entre os orçamentos iniciais de construção e os benefícios de longo prazo, muitas vezes invisíveis, que os espaços interiores de elevada qualidade proporcionam à sociedade.
Num projeto de construção típico, os promotores enfrentam a difícil tarefa de gerir os custos imediatos de investimento (CapEx), mantendo simultaneamente a viabilidade financeira dos projetos. Ao mesmo tempo, arquitetos e engenheiros defendem a implementação de sistemas avançados que otimizem os custos operacionais (OpEx) e a qualidade do ar a longo prazo. Como o modelo imobiliário tradicional separa os orçamentos de construção dos futuros benefícios para a saúde dos ocupantes, torna-se difícil justificar os custos iniciais mais elevados associados a sistemas avançados de ventilação e filtração dentro das estruturas financeiras convencionais.
No entanto, quando analisamos a situação para além da fase inicial de construção, percebemos que existe uma oportunidade muito maior para promover o bem-estar da sociedade. Como os seres humanos passam cerca de 90% das suas vidas em espaços interiores, a qualidade do ambiente construído tem um impacto direto na saúde, no conforto e no desempenho das pessoas. Os códigos de construção são concebidos para garantir a segurança básica, mas ir mais além pode reduzir significativamente doenças crónicas, alergias e fadiga.
Em qualquer organização, os investimentos relacionados com recursos humanos — como salários e cuidados de saúde — superam as despesas com energia numa proporção próxima de cem para um. Investir numa melhor renovação de ar e na qualidade ambiental interior (IEQ) é uma forma altamente eficaz de aumentar a produtividade humana a longo prazo, reduzir o absentismo e promover a saúde pública.
Para ajudar o mercado a evoluir para estes padrões mais saudáveis, devemos tratar a qualidade do ar interior como uma prioridade coletiva. Alcançar a visão da ASHRAE de “Healthy Buildings: Designing for Life” exige um amplo esforço de sensibilização junto do público e dos decisores políticos. À medida que aumenta a consciencialização, os ocupantes passarão naturalmente a procurar e valorizar dados de qualidade do ar em tempo real na escolha dos locais onde vivem e trabalham. Paralelamente, quando os legisladores atualizam os regulamentos e criam incentivos financeiros, facilitam o investimento dos promotores em sistemas saudáveis e de elevado desempenho desde o primeiro dia.
Os regulamentos e as práticas atuais são claramente insuficientes para proteger a saúde dos ocupantes, e os edifícios do futuro irão exigir normas obrigatórias muito mais exigentes.
Historicamente, os códigos de construção concentraram-se na prevenção de desastres imediatos, como incêndios ou colapsos estruturais, relegando a qualidade ambiental interior (IEQ) para um plano secundário. A maioria dos regulamentos locais limita-se a impor taxas mínimas de ventilação — frequentemente baseadas apenas numa parte das normas existentes — destinadas a controlar odores e diluir concentrações de dióxido de carbono.
Estes requisitos mínimos e estáticos não respondem às realidades atuais, como a emissão de compostos químicos por materiais sintéticos, a presença de agentes patogénicos transportados pelo ar ou os fenómenos meteorológicos extremos associados às alterações climáticas, que frequentemente aprisionam poluentes nos espaços interiores.
Para colmatar esta lacuna, os futuros regulamentos devem evoluir de abordagens prescritivas para modelos baseados no desempenho contínuo. Esta mudança já está a ganhar força através de iniciativas como a atualização da Norma ASHRAE 62.1-2025, que promove fortemente o Procedimento de Qualidade do Ar Interior (IAQP).
Em vez de introduzir simplesmente uma quantidade fixa de ar exterior, os regulamentos do futuro deverão exigir redes inteligentes de sensores IoT capazes de monitorizar, em tempo real, contaminantes como partículas finas (PM2.5) e compostos orgânicos voláteis (COV). A verdadeira proteção da saúde pública exige que os edifícios adaptem autonomamente os seus sistemas de filtração, purificação e ventilação às condições reais do ambiente interior.
Em última análise, o Fórum Económico Mundial tem defendido que o ar interior deve receber a mesma prioridade legal e regulamentar que o ar exterior. Enquanto as agências ambientais regulam rigorosamente o smog e as emissões dos veículos, o ar que respiramos durante 90% das nossas vidas continua, em grande medida, sem monitorização obrigatória.
As futuras normas deverão exigir avaliações periódicas da “saúde” dos edifícios, obrigar os proprietários a divulgar métricas de qualidade do ar aos ocupantes e associar incentivos fiscais empresariais a resultados comprovados em matéria de saúde ambiental interior. Enquanto estes critérios permanecerem apenas como orientações voluntárias, a infraestrutura dos edifícios continuará a ficar aquém das necessidades urgentes da saúde pública global.
Os sistemas AVAC&R desempenham um papel fundamental na descarbonização, uma vez que representam quase metade do consumo energético total de um edifício.
Contudo, antes de modernizar qualquer equipamento, o primeiro passo deve ser sempre melhorar a envolvente do edifício, reforçando o isolamento térmico e eliminando infiltrações de ar. Depois de otimizada a envolvente, torna-se possível dimensionar corretamente os sistemas AVAC de acordo com as cargas reais de aquecimento e arrefecimento, evitando margens de segurança excessivas e desperdícios energéticos.
A etapa seguinte consiste em garantir que estes sistemas mais eficientes sejam alimentados por fontes de eletricidade renovável.
Com esta base estabelecida, a transição dependerá de algumas tecnologias-chave. Em regiões onde as temperaturas de inverno o permitam, as caldeiras a combustíveis fósseis devem ser substituídas por bombas de calor elétricas alimentadas por eletricidade limpa. Paralelamente, a indústria deve acelerar a adoção de refrigerantes naturais e de baixo potencial de aquecimento global (GWP), reduzindo o impacto das fugas de gases com efeito de estufa.
Por fim, a utilização de recuperadores de energia e sistemas inteligentes de automação permitirá reaproveitar calor residual e operar os sistemas apenas quando os espaços estiverem efetivamente ocupados.
A situação em Portugal reflete, em grande medida, aquilo que tenho observado em vários países europeus: os elementos fundamentais já estão presentes, mas persistem algumas barreiras ao desenvolvimento do mercado.
Do ponto de vista da engenharia, existe um elevado nível de competência técnica. Portugal dispõe de engenheiros altamente qualificados, familiarizados com as melhores práticas da ASHRAE e plenamente capazes de desenvolver projetos novos ou reabilitar edifícios existentes de acordo com exigentes metas de neutralidade carbónica.
Da mesma forma, fabricantes e instaladores disponibilizam uma oferta sólida e abrangente de soluções de elevada eficiência energética.
Os principais obstáculos são de natureza regulatória e financeira. O Governo encontra-se atualmente a gerir a complexa adaptação do enquadramento legislativo nacional às exigências da revisão de 2024 da Diretiva Europeia sobre o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD). Este processo é perfeitamente normal, dada a complexidade dos compromissos necessários para transformar estas exigências em legislação.
Contudo, as verdadeiras barreiras continuam a ser a sensibilização do público e os custos iniciais de investimento, desafios que a regulamentação, por si só, não consegue resolver.
Uma vez que Portugal opera num mercado globalizado dominado por grandes empresas multinacionais, as soluções tecnológicas adequadas ao clima já estão amplamente disponíveis. As principais vantagens competitivas do país residem em dois aspetos:
Para colmatar esta lacuna, o Governo deve liderar pelo exemplo através do seu próprio património imobiliário, criando modelos de referência que incentivem o setor privado a seguir o mesmo caminho.
Embora a eletrificação dos edifícios, a transição dos refrigerantes e a digitalização representem transformações tecnológicas de enorme importância, a escassez de profissionais qualificados é, sem dúvida, o desafio mais crítico para o futuro do setor.
Atualmente, já dispomos da tecnologia e das ferramentas de engenharia necessárias para descarbonizar o planeta. O problema é que não dispomos dos recursos humanos necessários para implementar essas soluções à escala exigida.
Esta falta de profissionais qualificados constitui um estrangulamento que compromete todos os restantes objetivos da indústria. Em termos simples, a tecnologia verde só é eficaz se existirem pessoas capazes de a projetar, instalar e manter.
A substituição de milhões de caldeiras por bombas de calor elétricas exige uma enorme quantidade de técnicos qualificados que atualmente não existem em número suficiente. O resultado são atrasos nos projetos e aumento dos custos.
Além disso, muitos dos novos refrigerantes de baixo GWP são ligeiramente inflamáveis, tóxicos ou funcionam sob pressões elevadas. Colocar estas tecnologias nas mãos de profissionais insuficientemente preparados representa riscos significativos de segurança e operação.
Mesmo a promessa da digitalização e da automação inteligente baseada em inteligência artificial perde eficácia se os técnicos não tiverem formação adequada para programar controladores e calibrar sensores.
Por isso, resolver a crise de talento deve ser uma prioridade absoluta. O setor AVAC&R precisa de investir fortemente em escolas profissionais modernas, simplificar os processos de certificação e reposicionar-se como uma indústria atrativa para jovens com competências tecnológicas.
Se não conseguirmos formar uma nova geração de profissionais altamente qualificados durante a próxima década, os equipamentos mais avançados e os softwares mais sofisticados permanecerão nos armazéns, e os objetivos globais de sustentabilidade continuarão fora do nosso alcance.
As tecnologias digitais irão transformar os edifícios, convertendo-os de espaços estáticos e pré-programados em ambientes inteligentes e adaptativos.
Durante décadas, os sistemas AVAC funcionaram com base em horários rígidos, aquecendo ou arrefecendo espaços vazios simplesmente porque assim estava programado. O resultado inevitável foi o desperdício energético.
O futuro passa pela otimização preditiva. Combinando automação inteligente e dados em tempo real, os edifícios poderão consultar previsões meteorológicas, monitorizar a ocupação dos espaços e interagir com a rede elétrica. Desta forma, será possível ajustar automaticamente as condições de funcionamento antes de uma onda de calor ou da chegada de um grande número de pessoas.
A inteligência artificial irá também revolucionar a manutenção através do diagnóstico preditivo. Em vez de esperar pela avaria de um equipamento num dia de temperaturas extremas, os algoritmos poderão monitorizar continuamente o seu desempenho e identificar sinais de degradação ou vibrações anómalas semanas antes de ocorrer uma falha.
Esta abordagem permitirá reduzir drasticamente as paragens inesperadas e substituir as intervenções de emergência por estratégias preventivas.
Além disso, a IA funcionará como um assistente digital para uma força de trabalho limitada, ajudando os técnicos a identificar problemas mais rapidamente e a reduzir o tempo gasto na procura de falhas ocultas.
A próxima década será marcada pela convergência de três grandes tendências: a descarbonização profunda, a adoção generalizada da inteligência artificial para operações preditivas e uma atenção crescente à qualidade ambiental interior.
O setor abandonará progressivamente os modelos estáticos baseados em horários fixos e evoluirá para edifícios dinâmicos, de emissões nulas, capazes de proteger ativamente a saúde humana.
Para que esta transição seja bem-sucedida, será essencial começar por melhorar o desempenho da envolvente dos edifícios e dimensionar corretamente os equipamentos em função das cargas reais. Só depois será possível integrar de forma eficiente tecnologias como bombas de calor avançadas, sistemas inteligentes de recuperação de energia e refrigerantes de baixo GWP alimentados por eletricidade renovável.
A ASHRAE está a preparar a indústria para este futuro através da transformação da investigação mais avançada em normas técnicas e liderança global.
Sob o tema presidencial “Healthy Buildings: Designing for Life”, a associação está a promover uma mudança de paradigma, deslocando o foco da simples conformidade regulamentar para a otimização do desempenho humano.
A ASHRAE continua igualmente a atualizar normas fundamentais, como a Norma 62.1 para ventilação e a Norma 90.1 para eficiência energética, incorporando abordagens baseadas em desempenho em tempo real.
Paralelamente, a organização está a reforçar os seus programas de desenvolvimento profissional para garantir que a próxima geração de especialistas possui as competências necessárias para trabalhar com refrigerantes naturais e sistemas avançados de automação baseados em dados.
Biografia
Bill McQuade, P.E., CDP, Fellow ASHRAE e LEED AP, é o Presidente da ASHRAE para o mandato 2025-2026.
Ao longo do seu percurso na ASHRAE, desempenhou diversos cargos de liderança, incluindo President-Elect, Treasurer, Vice President e Director-at-Large no Board of Directors da Sociedade. Foi igualmente Chair do Members Council e do Technology Council, tendo coordenado e participado ativamente em múltiplos comités estratégicos nas áreas da tecnologia, investigação, comunicação, promoção da associação, atividades estudantis e jovens engenheiros.
O tema do seu mandato presidencial é "Healthy Buildings: Designing for Life”, centrado na relação entre eficiência energética e qualidade do ambiente interior, promovendo edifícios mais saudáveis, sustentáveis e centrados nas pessoas. A sua visão destaca a importância de integrar qualidade do ar interior, conforto térmico, acústica, iluminação e qualidade da água no desenho e operação dos edifícios.
Bill McQuade possui mais de 32 anos de experiência no setor AVAC&R e exerce atualmente funções como Vice President for Government Affairs and Global Sustainability da Baltimore Aircoil Company (BAC), nos Estados Unidos, onde lidera estratégias de sustentabilidade e relações institucionais internacionais.
Ao longo da sua carreira, recebeu diversas distinções da ASHRAE, incluindo o Exceptional Service Award em 2023, sendo também detentor de 22 patentes internacionais relacionadas com chillers, algoritmos de controlo, separação de óleo e deteção de fugas de fluidos frigorigéneos.
McQuade participou ainda em iniciativas internacionais ligadas à descarbonização, sustentabilidade e inovação tecnológica, colaborando com entidades como o U.S. Department of Energy, o U.S. Environmental Protection Agency e o United Nations Environment Programme.
É mestre em Engenharia Mecânica e possui um MBA pela Pennsylvania State University.




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