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Mobilidade Elétrica - Opinião

Carregamento rápido ou carregamento de proximidade: estamos a construir a infraestrutura certa para a mobilidade elétrica urbana?

Liliana Matos* – Future Energy Leaders Portugal (FELPT)

27/07/2026
“Enquanto discutimos carregamentos de 300 kW, tempos de carregamento cada vez menores e corredores de carregamento ultrarrápido, continua a existir uma questão mais básica por resolver: onde carrega quem não tem garagem?”
“Mais do que aumentar a potência disponível, importa garantir que a infraestrutura é acessível, fiável e adaptada aos diferentes contextos urbanos”.

Durante anos, o principal desafio da mobilidade elétrica foi provar que os veículos elétricos eram uma alternativa credível aos veículos de combustão. A discussão centrava-se na autonomia, no desempenho das baterias e na disponibilidade de pontos de carregamento. Hoje, o debate evoluiu. A tecnologia está mais madura, a oferta de veículos aumentou e a infraestrutura continua a crescer [1][2]. No entanto, à medida que a mobilidade elétrica entra numa fase mais massificada, começam a surgir desafios menos visíveis, mas igualmente importantes.

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É curioso observar que, enquanto discutimos carregamentos de 300 kW, tempos de carregamento cada vez menores e corredores de carregamento ultrarrápido, continua a existir uma questão mais básica por resolver: onde carrega quem não tem garagem?

A realidade urbana nem sempre acompanha a narrativa

Quando se fala em mobilidade elétrica, é fácil assumir que o carregamento acontece em casa e que a rede pública serve sobretudo para viagens ocasionais. Mas essa não é a realidade de todos os utilizadores.

Em muitos centros urbanos, especialmente nas zonas mais antigas e densamente povoadas, não há alternativa ao estacionamento na via pública. Para estes utilizadores, a rede pública não é uma solução complementar. É a principal forma de carregamento disponível. Apesar disso, uma parte significativa da atenção mediática e dos investimentos continua focada no carregamento rápido e ultrarrápido [3][4].

Naturalmente, estes equipamentos são essenciais. Ninguém questiona a sua importância para viagens de longa distância ou para situações em que o tempo é um fator crítico. O problema surge quando a velocidade passa a ser vista como o principal indicador de evolução da infraestrutura. Porque nem todos os desafios da mobilidade elétrica se resolvem com mais potência.

A maioria dos veículos passa muito mais tempo estacionada do que em circulação. E, para uma grande parte dos utilizadores urbanos, a necessidade não é carregar centenas de quilómetros em quinze minutos. É conseguir carregar perto de casa durante a noite.

O carregamento de proximidade continua a ser uma peça importante

Existe, por vezes, a percepção de que o carregamento de menor potência representa uma solução menos avançada ou menos atrativa. Na prática, responde simplesmente a uma necessidade diferente.

Quando um veículo permanece estacionado durante oito, dez ou doze horas, a prioridade deixa de ser a velocidade máxima de carregamento. Passa a ser a disponibilidade da infraestrutura e a conveniência da localização.

Para muitos utilizadores, um carregador acessível, a poucos minutos de casa, poderá ter mais valor do que um carregador ultrarrápido localizado a vários quilómetros de distância.

Existe, também, uma dimensão económica que merece atenção. Sempre que existe a possibilidade de carregar durante períodos noturnos, os utilizadores podem beneficiar de tarifas energéticas mais favoráveis e distribuir o consumo ao longo de várias horas.

Do ponto de vista da rede elétrica, soluções distribuídas de carregamento de proximidade tendem igualmente a criar condições mais favoráveis para a gestão da carga e para a integração crescente de energias renováveis [5][6][7].

O objetivo não é substituir carregadores rápidos por carregadores lentos. A infraestrutura precisa dos dois. O desafio passa por encontrar um equilíbrio que responda às diferentes realidades de utilização.

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Quantos postos existem? Talvez não seja a pergunta mais importante

Outra reflexão que importa fazer prende-se com a forma como avaliamos o sucesso da infraestrutura de carregamento.

Frequentemente, o debate centra-se no número de postos instalados ou na potência disponível. São indicadores relevantes e fáceis de comunicar. Mas talvez não sejam aqueles que mais interessam ao utilizador final.

A pergunta que verdadeiramente importa é bastante mais simples: quando preciso de carregar, consigo fazê-lo?

Qualquer utilizador frequente da rede pública já passou pela situação de chegar a um posto aparentemente disponível e descobrir que existe algum problema operacional que impede o carregamento. Pode ser uma falha de autenticação, um problema de comunicação, uma indisponibilidade temporária ou outra situação semelhante.

Estas ocorrências fazem parte da operação de qualquer infraestrutura tecnológica. O que merece reflexão é a forma como continuam, muitas vezes, a depender do utilizador para serem identificadas.

Em muitos casos, o operador apenas toma conhecimento do problema depois de alguém contactar uma linha de apoio ou abrir uma ocorrência. Num setor cada vez mais digitalizado, é legítimo questionar se não deveríamos ser capazes de detetar uma parte significativa destas situações de forma automática e mais proativa.

À medida que a mobilidade elétrica cresce, será cada vez mais importante olhar para métricas de disponibilidade, fiabilidade e qualidade de serviço com a mesma atenção que dedicamos à potência instalada.

Porque uma infraestrutura existe verdadeiramente apenas quando funciona.

O próximo desafio da mobilidade elétrica

A mobilidade elétrica já ultrapassou a fase em que precisava de provar o seu potencial tecnológico. O desafio atual é mais complexo: garantir que a infraestrutura responde às necessidades de utilização do mundo real.

Isso implica continuar a investir em carregamento rápido onde ele faz sentido. Mas implica, também, reconhecer que uma parte significativa dos utilizadores procura algo diferente: um local próximo de casa onde possa deixar o carro carregar durante a noite.

Municípios, operadores e restantes entidades do setor terão um papel importante na construção deste equilíbrio [4][7][8]. Mais do que aumentar a potência disponível, importa garantir que a infraestrutura é acessível, fiável e adaptada aos diferentes contextos urbanos.

Caso contrário, corremos o risco de criar uma realidade paradoxal: uma mobilidade elétrica tecnologicamente avançada, mas significativamente mais simples para quem tem garagem do que para quem vive a cidade.

E essa é uma discussão que vale a pena começar a ter.

Referências

[1] International Energy Agency (IEA). Global EV Outlook 2025. Paris: IEA.

[2] Mobi.E. Estatísticas e indicadores da Rede de Mobilidade Elétrica em Portugal. Disponível em: www.mobie.pt

[3] Eurelectric. Recharge EU: How Many Charge Points Will Europe Need in the 2020s?

[4] European Commission. Sustainable and Smart Mobility Strategy – Putting European Transport on Track for the Future.

[5] International Energy Agency (IEA). Grid Integration of Electric Vehicles and Smart Charging.

[6] ERSE. Publicações e relatórios sobre mobilidade elétrica e integração no sistema elétrico nacional.

[7] ADENE. Estudos e relatórios sobre eficiência energética e mobilidade sustentável em Portugal.

Liliana Matos, Gestora de Projeto, NTT Data
Liliana Matos, Gestora de Projeto, NTT Data.

Liliana Matos

Gestora de Projeto na NTT Data.

Anteriormente trabalhou como Gestor de Projetos e Analista de Energia e Negócios no Smart Energy Lab, e como Trader do Mercado de Energia na EDP.

Experiência em mercados energéticos, gestão de projetos tecnológicos e desenvolvimento de negócios no setor energético.

É licenciada em Engenharia Energética e Ambiental pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e mestre em Engenharia e Gestão Energética pelo Instituto Superior Técnico.

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